quinta-feira, 16 de abril de 2015

Viver Numa Cidade Violenta Está Abalando Minha Saúde

Olá, tudo bem?

Hoje vou falar de quando eu estou na minha cidade natal, onde moro: Recife.

Sim, Recife tem encantos mil... Mas, assim como tantas outras grandes cidades do Brasil, é um lugar com altos índices de violência de todos os tipos - e isso não tá me fazendo bem.

Dor de cabeça de preocupação e estresse nesse exato momento... (imagem de: http://wp.clicrbs.com.br)



"Nossa, mas se você não consegue ser feliz aí, não vai conseguir ser em lugar nenhum...", você pode me dizer. Mas, bem ou mal, minha felicidade está intimamente ligada às minhas (e às daqueles que amo e prezo) segurança, paz e liberdade. E aqui a gente vive apavorado, sem saber se vai voltar vivo pra casa e tomando conhecimento de vários assaltos e assassinatos diariamente, como se isso pudesse ser normal.

Não quero aqui fazer uma propaganda contra minha cidade. Dói meu coração encarar e escancarar essas verdades, porque eu amo meu lugar. Aqui tem coisas e pessoas incríveis, pode acreditar. Sol e calor o ano inteiro, praias maravilhosas, frutas variadas e saborosas, uma comida regional de colocar no chinelo muitos cantos do mundo, rs! O povo recifense, a maioria, tem bom coração e gosta de ajudar e receber bem as pessoas. Acho que para turistar aqui é lindo, ainda que a infraestrutura não seja de primeiro mundo (longe disso), o carinho sincero das pessoas é inesquecível. O povo pernambucano é honesto, divertido, amável e muito trabalhador.

Todas essas coisas poderiam fazer daqui quase que um paraíso para se viver. Contudo, a realidade nos dá tapas na cara todo dia. O trânsito daqui, por exemplo, foi considerado o mais caótico do país no ano passado (clique aqui pra ler a notícia). E essa estatística eu posso comprovar só de ficar em casa: as buzinas não param. Já morei em São Paulo por alguns anos e lá, apesar de horrível, não é pior que aqui. Consegue imaginar o tanto de xingamentos e brigas pesadas que rolam? É o tempo todo! Muito estressante e dá muito medo de dirigir, pegar ônibus, táxi, andar de bicicleta e até de ser pedestre! :/

O vídeo abaixo ficou conhecido. Já pensou ir pro shopping e presenciar uma coisa dessas? E se uma coisa dessas acontecer com você? Eu mesma já passei perrengues com outro motorista nesse mesmo estacionamento.




O que é mais chocante é pensar que essa é a parte menos pesada do plano geral. Há ladrões, estupradores, sequestradores e assassinos por todo lado - essa é a impressão de quem vive aqui. Se anoiteceu, você não pode mais andar na rua, pois é muito perigoso. Se você é mulher, seu risco é muito maior. Se estiver sozinha, você está "pedindo pra ser assaltada" e, logo, a culpa é toda sua (culpabilização da vítima modo hardcore). Se for tarde da noite, você só chega viva em casa por um milagre. Se for andar em lugares mais afastados, sua família fica só na base da esperança.

Você pode pensar que eu estou exagerando, que a vida aqui não é tão apavorante assim. De repente, nem é. Mas garanto que é essa intensa sensação de insegurança durante uma vida inteira o que não me deixa sossegada. Estamos sempre nos precavendo para tentar fugir das grandes possibilidades de sermos agredidos ou mortos. Agora, me responde: viver assim pode ser saudável?

Por experiência própria, eu digo que não. Ansiedade e preocupação constantes são venenos que maltratam a alma e o corpo. Eu vivo mentalmente exausta por vivenciar essa iminência e pensar nisso 24 horas por dia, 7 dias por semana... 33 anos e meio, como se não bastassem todos os outros problemas da vida. Eu tenho pesadelos quase todas as noites relativos a isso. Essa noite mesmo, eu sonhei com ladrões entrando dentro de casa e nos atacando. Por mais que eu tente me acalmar e me convencer que as coisas não são assim tão ruins, eu não consigo ignorar esse pavor.

Esse post acaba sendo mais um desabafo, porque do mesmo jeito que meus pais ficam sofrendo quando saio de casa, eu sofro quando eles estão na rua, especialmente depois das 6 da tarde, que é quando escurece. Agora mesmo, estou super aflita esperando minha mãe voltar pra casa da rua, são 20:00 h. 

Estou escrevendo esse post pra tentar me distrair enquanto ela não chega. Porém, não sei se adiantou muito, porque a agonia não passa... Programas como sair pra jantar/ lanchar ou passear à noite é uma coisa que quase nunca fazemos por causa disso tudo. E se queremos muito, raramente vamos, mas vamos com aquele suspense no ar, o que não tem nada de bom e estraga o que deveria ser um prazer.

*Atualização em 21/04/2015: Mulheres Denunciam Assaltos na Agamenon Magalhães (motoristas mulheres dirigindo sozinhas são alvos constantes de adolescentes armados que fingem vender pipoca no sinal de uma das mais importantes e movimentadas vias de Recife - pertinho aqui de casa...).


Eu poderia falar aqui de tantas outras mazelas que nos atazanam, como taxa de desemprego aumentando, alta da gasolina, salário mínimo muito abaixo do que seria necessário, saúde precária, educação sem qualidade... Mas, enfim, seria chover no molhado. Se você é brasileiro deve conhecer a vida numa cidade grande do país, então, você já deve estar bem por dentro de todas as dificuldades que enfrentamos por aqui. 

E, sabe, ter consciência de que há lugares muito piores que aqui não é uma coisa que me alivia; não podemos nivelar assim e eu não me sinto melhor por ver pessoas sofrendo mais que nós. Sou muito agradecida a Deus por todas as coisas boas, eu as reconheço claramente. Só não consigo engolir nem digerir esse clima de terror ao qual somos obrigados a nos submeter, tendo nossa liberdade e direito e ir e vir ceifados.


"Mas você e sua família têm cidadania europeia, por que não se mandam para lá, que é mais seguro?"

Isso está nos planos, mas tenho cá minhas dúvidas que venha a se realizar. Não é fácil mudar a vida de meus pais, já com mais de 60 anos, tão radicalmente. Sim, tenho conversado com eles sobre essa ideia, mas eles ficam sempre muito reticentes; não sei se teriam coragem. Meu pai, aliás, é um que não quer saber dessa história. Eu tenho um irmão especial e eles também acham que pode ser complicado para ele se adaptar noutro lugar, noutra cultura. Fora que a aposentadoria dos dois juntos não daria muitos euros e provavelmente teríamos que viver uma vida bem mais simples do que a que temos aqui em termos financeiros, o que, mesmo levando em conta os outros benefícios como segurança e paz, pode não ser muito agradável.


"Mas por que, então, você não vai morar fora sozinha?"

Porque eu não sei se eu teria paz vivendo segura lá, enquanto eles, velhos, com a saúde frágil e sozinhos aqui, correm tantos perigos. Ficar preocupada e super longe sem poder cuidar e proteger eles só aumentaria a minha nóia. No entanto, eu não descarto uma tentativa de ir primeiro e depois que eu tivesse um bom trabalho e casa lá, levá-los pra ficarem comigo. Em todos os outros aspectos, pra mim é mais fácil cair fora daqui, pois sou solteira, sem filhos e relativamente jovem, rs! É uma mudança que precisa ser estudada pra não gerar arrependimentos.

Bom, esse foi meu post de hoje, que finalizo ouvindo da rua uma sirene da polícia. Vou ligar novamente pra minha mãe.

Beijos, até o próximo post!

M.

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